Textos

27.03.2020
Minha realidade de quarentena
(COVID-19)

Por muitos dias me culpei, me senti mal e desconfortável. Eu não entendia o que estava acontecendo comigo e isso me deixava bastante irritada.

O instagram aberto transbordava em posts de dicas, vídeos, textos, propagandas, stories de muita produtividade, leituras, faxina em dia, rotina regrada e intercalado a tudo isso notícias sobre COVID-19.

Esse texto é pra você, que não acompanhou e compartilhou boa parte ou até mesmo nada desse sentimento extremamente funcional e operacional da quarentena!

Eu não faço parte dessa massa. Se você também não faz, toca aqui e segue a leitura.


Quem me conhece sabe que eu sou bastante ativa, sempre de um lado para o outro, sempre em curso aqui, leitura ali, produzindo, estudando, atendendo, com filha pequena e outras tantas coisas. Várias tarefas me movimentam muito mais em questão de produtividade do que estar em casa. E estar sem movimento físico, trabalhando e estudando, me desmotiva. Por duas vezes ter “parado” minhas atividades, senti uma tristeza profunda e até depressiva.

Pessoal e profissionalmente eu vinha numa crescente de descobertas e ajustes para um melhor equilíbrio e aceitação de algumas mudanças e movimentos. Mas ficar em isolamento, em casa, sem o direito de ir e vir, me bloqueou. Estou em casa desde a quarta-feira da semana passada. Assustada com o coronavírus, com as possibilidades, com o que pode acontecer se a curva aumentar, com os riscos.

Eu via todos se reinventando nessa vida online, lendo muito, fazendo tantas coisas, e eu me senti mal. Mal por não estar produzindo “agora que tem tempo”. É o que mais a gente ouve, é o que mais a gente lê. Na verdade eu até pensei no primeiro dia de home office algumas dicas mais leves e de maior conexão entre a família do que fazer com as crianças em casa, mas acabei nem postando.

Eu me senti sozinha. Eu me senti inútil. Eu me senti a ovelha negra.

Por atender crianças (desde os 4 anos) e adolescentes, isso pra mim particularmente já se torna difícil de fazer por vídeo chamada, limitação minha e o fato de morar sozinha com a minha filha, impossibilita uma regra básica de garantia para atendimento, seja presencial ou online, o sigilo. Eu não aceitava que não conseguia fazer o que via colegas fazendo. É, também caí na comparação, viu?

Por prezar pelo cuidado integral dos meus pequenos, pelo meu cuidado e da minha filha, optei por não atender mais pessoalmente desde a quinta passada. Resisti muito para tomar esta decisão, por muita insegurança. Mas fui muito acolhida pelas famílias e todas compartilharam comigo que concordavam e achavam melhor aguardar a situação acalmar. Foi difícil eu me perdoar por ter feito isso, mesmo que tenha sido o que era possível eu fazer.

Dias depois, ainda muito revoltada e culpada, percebi que mais gente estava comigo nessa minoria. Que não estavam dando conta de tanta atividade dos filhos em casa, que não conseguiam se concentrar para ler ou escrever, que se sentiam cansadas por tantas outras tarefas que tiveram que assumir além do home office, ou apenas por estarem esgotadas mentalmente por conta da preocupação dos riscos dessa pandemia que chegou e nos jogou baldes de água fria.

Foi ai que eu me dei permissão para falar “ufa, tá tudo bem, tem mais gente compartilhando do que eu sinto”. Se sentir pertencente a um grupo, por mais pequeno que seja, dá uma sensação de alívio. E foi um alivio gigante poder me acalmar e ver que eu não estou produzindo conteúdos para a internet ou me disponibilizando a atender em projetos da pandemia, mas que estou dando conta das minhas emoções (frustração, da raiva, do cansaço) e manter minha saúde mental e emocional preservada frente ao estresse. Isso demanda energia, autocontrole e autossuporte. O que eu acredito e prego de alguma forma sobre a terapia. E além disso, além de cuidar de mim, preciso cuidar integralmente da minha filha de quase 4 anos que é tão ativa quanto eu, e isso demanda bastante também.

Quando finalmente eu respirei aliviada, consegui me acalmar, me perdoar e entender que eu estou fazendo o que é possível pra mim, dentro da minha realidade e do meu contexto. Para além de entender, eu preciso bancar tudo isso na prática. Consegui também perceber as pequenas atividades que eu já tinha feito e que estava fazendo: ler um pouco do livro que estava em andamento, estudar algumas coisas da minha pós que está em andamento, assistir filmes e séries que me agregam, e até escrever este texto.

Eu espero que as pessoas, poucas que sejam, que se conectam com esse monte de confusões e emoções, possam respirar e se perdoar também. Façam o possível dentro da realidade de vocês. Valorizem quem consegue fazer mais, muito mais, isso é ótimo. Mas não menosprezam os pequenos passos de vocês, assim como eu fiz até dois dias atrás. Está tudo bem a sua realidade. Está tudo bem ser quem a gente é. Está tudo bem fazer o possível dentro das nossas condições. E principalmente, estar tudo bem não conseguir e ser vulnerável. Aceitar a vulnerabilidade acaba por nos fortalecer.

Cuide de você. Se acolha. Não pense que tempo significa disponibilidade. Nem sempre estamos disponíveis para tudo. Não estamos sozinhos! Sempre tem alguém que, mesmo que não passe pela nossa cabeça, está passando por algo parecido. Força pra nós, força pra todos.

Eu não me sinto mais sozinha. Eu não sou inútil. Eu posso continuar a ser uma ovelha negra.

Agradeço com carinho quem chegou até aqui, se identificando ou não. Agradeço quem apenas por ler, respeitou a minha por hora realidade e o que faz sentido pra mim nesse momento, que depois de muito pensar, resolvi compartilhar.

Quem se identifica, compartilhe comigo a sua realidade. Estou aqui!

Evelise Constante Magnus